Banksy: Arte de Guerrilha

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Tudo o que pode ser dito a respeito do sufrágio pode ser resumido em uma frase:

Votar significa abrir mão do próprio poder.

Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a uma outra pessoa a própria liberdade.

Chamado monarca absoluto, rei constitucional ou simplesmente primeiro ministro, o candidato que levamos ao trono, ao gabinete ou ao parlamento sempre será o nosso senhor. São pessoas que colocamos “acima” de todas as leis, já que são elas que as fazem, cabendo-lhes, nesta condição, a tarefa de verificar se estão sendo obedecidas.

Votar é uma idiotice.

É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros. É muito provável que se acredite que a inteligência destas pessoas cresça na mesma proporção em que aumenta a variedade dos assuntos com os quais elas são obrigadas a tratar.

Porém, a história e a experiência mostram-nos o contrário.

O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.

Nas assembléias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.

Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.

Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.

Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.

Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte!

A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.

Por isso, não abandone sua liberdade.

Não vote!

Em vez de incumbir os outros pela defesa de seus próprios interesses, decida-se. Em vez de tentar escolher mentores que guiem suas ações futuras, seja seu próprio condutor. E faça isso agora! Homens convictos não esperam muito por uma oportunidade.

Colocar nos ombros dos outros a responsabilidade pelas suas ações é covardia.

Não vote!
Elisee Reclus

Monarquia Absoluta

Dentro da lógica
Há um relógio
Que marca as
mesmas horas.

Dentro das horas
Há um reilógico
Que diz pra gente
fazer assim,
assim.

O rei morreu.

Viva o outro rei
Que diz pra gente
fazer assim,
assim.

_____

Vote Nulo!!
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Franco Berardi (Bifo)

Durante 20 anos, o conformismo liberalista pareceu inatacável. Como uma verdadeira forma de terrorismo cultural, não admitia alternativas éticas nem políticas. Quem não aceitava a superioridade da lei do lucro era considerado um destroço do passado. Veio a revolta de Seattle, sinal do esfacelamento daquele conformismo...Subitamente foi posta em discussão a ditadura da economia em cada dimensão discursiva imaginária existencial.

Afinal, como amadureceu essa ruptura, que dinâmica social a tornou possível?

Seattle e a crise da ideologia da new economy

Para entender a origem do movimento global surgido em Seattle, é preciso interpretar a composição social do novo trabalho na rede, a formação e a crise do trabalho cognitivo global (1). Só quando entra em crise o processo produtivo e a ideologia da new economy, o trabalho cognitivo na rede se transforma em movimento global de auto-organização e de revolta.

Essa nova dinâmica manifestou-se há apenas dois anos. A rapidez de sua expansão política foi fulminante, mas a sua capacidade de auto-reflexão não avançou com o mesmo ritmo e ainda não dispomos de um quadro conceitual capaz de revelar a sua arquitetura social e as perspectivas estratégicas.

A emergência desse movimento não pode ser interpretada com os critérios da dialética e do socialismo novecentista, ele não poderá exprimir-se através das formas políticas da revolução, nem nas do reformismo. Talvez possamos buscar um conceito útil na tradição teórica do pensamento operário italiano (que interpreta os processos políticos com base no futuro da composição política do trabalho)(2), na tradição da esquizoanálise francesa (que interpreta os processos sociais como manifestações da imaginação desejosa)(3), e na prática da netculture e do Open Source.

Depois de Seattle, assistimos a dois fenômenos simultâneos. A semioeconomia (economia semiótica...), denominada new economy, entrou numa crise que não tem um caráter puramente financeiro, mas estrutural. A crise da semioeconomia nasce da contradição entre massa da produção semiótica, ilimitada dentro das condições da tecnologia digital e conectiva, e mercado mental, ou seja, tempo de atenção socialmente disponível. Isto tem caráter limitado, porque se trata do tempo de que dispõe o cérebro organicamente limitado de um massa social limitada de consumidores mentais. Aquilo que Marx chamou de crise de superprodução hoje se manifesta como descompasso entre ciberespaço e cibertempo, entre produção semiótica ilimitada e mercado-atenção em rápido esgotamento. A crise da new economy se enraíza nessa contradição, e não há solução dentro dos limites postos pela forma social liberalista.

Quando a crise da semioeconomia se anunciou no imaginário juvenil, sobretudo no proletariado high tech (a classe virtual dos trabalhadores cognitivos em rede), produziu-se uma rejeição da redução da existência a business: recusa que não é tanto política quanto existencial...

Na década de 1990, a new economy funcionou como promessa de felicidade, de sucesso, de enriquecimento rápido. Um filão da cibercultura (representado pela revista Wired) construiu em cima dessa promessa uma cínica utopia de grande fascínio. A inteligência, a criatividade e a comunicação foram submetidas à regra econômica do lucro máximo. Contudo, a certa altura a promessa de felicidade fendeu-se. A implosão da Nasdaq (4) soou a sirene do alarme: a ilusão de felicidade dissolveu-se. Aqueles que se haviam proclamado empreendedores de si próprios descobrem que são escravos de automatismos técnicos, financeiros, conectivos que absorvem o seu tempo integral, a sua vida inteira, toda a sua atividade consciente. De repente, os trabalhadores cognitivos descobrem que os seus salários só dão para administrar o ritmo, descobrem a miséria existencial e sexual da vida de net-slaves, descobrem as conseqüências do estresse da competição. Nessa crise cultural, é liberada enorme quantidade de tempo inteligente. À medida que a ilusão se dissolve, um número crescente de proletários cognitivos começa a investir as suas competências em um processo de solidariedade e de coletividade criativa. Disto nasce o movimento global, nesse plano o movimento global encontra a sua estratégia: é nessas condições que se prepara a explosão de Gênova.

Horror em Gênova

Gênova é a conclusão do ciclo de concretização do movimento global.

Fora da zona vermelha em que está fechado o G-8, manifestam-se centenas de milhares de pessoas. Não são militantes da esquerda novecentista, mas operadores de vídeo, intelectuais, trabalhadores sociais e um enorme número de agentes do voluntariado leigo e religioso. A polícia emerge em toda parte, espanca pessoas ajoelhadas, prende, fere, mate, no final agride os jornalistas do Indymedia surpreendidos durante o sono em uma escola. Os cidadãos civis estão horrorizados com o que está acontecendo na Itália, onde a máfia assume o governo. Esse país possui vocação para o conformismo autoritário, conforme se viu várias vezes no século passado. A identidade nacional italiana está enfraquecida em relação à riqueza das diversidades culturais, porém, de um lado, isto produz o familismo imoral da m´fia, substituição tribal e criminal da autoridade de Estado. De outro lado, produz a agressiva afirmação do estatismo que se organiza no fascismo. Hoje, pela primeira vez, máfia e fascismo (Berlusconi e Fini) são aliados, juntamente com o populismo racista da Liga e do integralismo católico. Essa reunião de inculturas produz produzirá monstruosidades inconcebíveis. Mas o problema não é só italiano. O capital global entrou numa crise da qual ninguém sabe imaginar a solução. A febre italiana é só um sinal desse enlouquecimento.

A perspectiva do movimento global

O movimento precisa inventar perspectivas completamente inovadoras com respeito às experiências dos movimentos revolucionários do século XX que não possuem mais nenhuma vitalidade. Por ora, a consciência teórica e estratégica não está à altura das potencialidades produtivas do movimento e da riqueza de sua composição social.

A mesma definição no global (comum a grupos como Attac e ao localismo ecologista ou ao voluntariado religioso, largamente empregada na linguagem jornalística) possui caráter impreciso e substancialmente reacionário. Esse movimento é global por vocação, por composição e por cultura. A anti-globalização reivindica a soberania política nacional e contra a globalização das corporations. Mas, escolhendo uma perspectiva de restauração da soberania nacional, o movimento está fadado a uma derrota certa; ele é reduzido à nostalgia por um passado em que o Estado nacional era uma máquina política eficaz, e as fronteiras nacionais possibilitavam uma territorialização da democracia. Agora, porém, o estado nacional é submetido a uma pressão desterritorializadora que não pode ser governada com as metodologias da política estatal moderna. A nova dimensão da democracia não cabe dentro dos limites da soberania nacional, mas deve ser procurada em um plano mais elevado, mais complexo, no nível da rede global.

Da composição social do trabalho cognitivo na rede nasce a perspectiva de auto-organização da inteligência coletiva, de autonomia do saber da regra do lucro e da propriedade privada. A regra do lucro limita as potencialidades produtivas da inteligência coletiva e, na prática do Open Source (5), está implícita uma alternativa para as a normas do lucro. Essa alternativa deve tornar-se estratégia consciente do movimento global.

Depois de Gênova, o movimento precisa sair da espiral repetitiva das manifestações de reação antiglobalista. A auto-organização do trabalho cognitivo deve ser o seu programa: os cientistas, os pesquisadores, os operadores da comunicação, os próprios funcionários da electronic governance são os agentes sociais e produtivos dessa perspectiva de auto-organização da inteligência coletiva. São eles que podem derrubar certeiramente o funcionamento das interfaces tecnossociais, são eles que podem dar forma a uma arquitetura tecnológica socialmente orientada. Eles podem esvaziar o poder do semiocapital (capital semiótico), sabotar os planos das corporations que dominam a semiosfera. Podem socializar o conhecimento sabotando as patentes, tornando públicos os resultados da pesquisa. Os trabalhadores cognitivos já começaram mover-se nessa direção. Milhares de pesquisadores de várias nacionalidades apresentaram a sugestão de publicação na internet dos resultados de cada pesquisa científica. Difundem-se as experiências de Open Source na informatização. No sistema da mídia, emergem situações como o Indymedia, rede de informações independentes do sistema econômico, capazes de inventar concatenações sociais. De Seattle a Gênova o movimento agiu como força de transformação do imaginário planetário, da consciência ética e do campo político. Agora essa missão foi cumprida. Os poderosos da Terra estão em fuga, refugiam-se nas montanhas do Canadá ou nos desertos do Qatar. Agora o movimento deve tornar-se força política que possibilite a autonomia da inteligência coletiva da regra do semiocapital.

Notas

1. Trabalho cognitivo, ou imaterial, é o termo que se dá à nova configuração do trabalho na atual fase do capitalismo. Teorizado pelos pós-fordistas italianos, o trabalho imaterial é o trabalho da linguagem, criação mental e afetiva, seja pelo uso dos computadores, ou da própria criatividade humana. Segundo estes teóricos, sua importância tem crescido enormemente no atual ciclo produtivo, a ponto de se tornar ele mesmo a base da produção, em todos os setores. É sobre o trabalho cognitivo e sua reconfiguração do capitalismo que se encontra boa parte dos fundamentos que Antonio Negri expõe em Império. Para saber mais, vide: Negri, Antonio; Lazzarato, Maurizio. Trabalho imaterial: formas de vida e produção de subjetividade, Rio de Janeiro, DP&A, 2001. (Nota do Rizoma)

2. Corrente do pensamento neo-marxista dos anos de 1960 que tem, entre seus maiores teóricos, Mario Tronti e o próprio Antonio Negri. (Nota do Tradutor)

3. Bifo faz referência a Félix Guattari e Gilles Deleuze. (N. do T.)

4. A bolsa americana dos valores das empresas de alta tecnologia. (N. do T.)

5. O movimento do Open Source, do copyleft e/ou do freenet coloca no cerne de sua estratégia a socialização dos meios de tratamento da informação e, pois, articula num mesmo plano a organização das lutas e da produção. Para uma apresentação sucinta, vide: Stallman, Richard. Biopirataria ou bioprivatização? Lugar Comum. Rio de Janeiro: Nepcom/UFRJ, n. 9/10, set. 1999. Vide também: Moineau, Laurent; Papathéodorou, Aris. Cooperação e produção imaterial em softwares livres. Elementos para uma leitura política do fenômeno GNU/Linux. Lugar Comum. Rio de Janeiro: Nepcom/UFRJ, n. 11, maio/ago. 2000. (N. do T.)

Tradução de Silva Debetto C. Reis

Franco Berardi, ou Bifo, é escritor, ativista, lendário participante da pirata Rádio Alice nos anos 70, que atualmente vive e trabalha em Bolonha.

Fonte: Cocco, Giuseppe; Hopstein, Graciela. As multidões e o Império: entre globalização da guerra e universalização dos direitos. Rio de Janeiro, DP&A, 2002, pp. 107-112
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Ricardo Rosas

1ª cena : Imagine um místico enlouquecido gritando numa montanha. Suas palavras são um misto de poesia e aviso, como as iluminações desses bárbaros visionários, Blake ou Nerval, como os antigos druidas, xamãs e profetas a vaticinar o futuro da tribo.

2ª Cena : Imagine agora um pirata. Pense nas comunas piratas livres dos mares perdidos, pense nos bucaneiros, nessas congregações misto de utopia e anarquia, pense até mesmo nos hackers modernos, esses nômades piratas de dados a surfar na net oceano de nossa época, onde a noção de propriedade, principalmente intelectual, é cada vez mais próxima de uma miragem fadada ao desaparecimento.

3ª Cena : Visualize um poeta, burilador de palavras a jorrar significados e imagens vertiginosas num turbilhão borbulhante, caótico, recheado de mensagens mas igualmente lírico, num ritmo fluido que lembre o desregramento dos sentidos de Rimbaud ou o caleidoscópio de imagens de Allen Ginsberg.

4ª Cena : Na Biblioteca de Babel, move-se um erudito. Imagine esse sábio que já percorreu os livros místicos do hinduísmo e do sufismo, que conhece os segredos dos neo-platônicos e dos alquimistas, os livros de emblemas da época barroca, infinitudes de poesia, que já leu utopistas e enciclopedistas, e todo um "contracânone" ou tradição de inconformistas que vai de Sade, passando por Fourier, Nietzsche, Baudelaire, Bakunin, até chegar aos luminares da ainda fértil contracultura americana, sejam eles Timothy Leary ou Robert Anton Wilson, ou ainda os subversivos teóricos do situacionismo, como Guy Debord e Raoul Vaneigem. Para articular tanta informação, esse erudito move-se por seus dados não de uma forma racional, mas como Salvador Dali teria formulado de maneira precisa : por um método crítico-paranóico, juntando dados aparentemente isolados, impensados, numa livre associação que ele chamará de palimpsesto, junção de camadas interrelacionadas.

Todas as cenas agora juntas. O homem é um só. Seu nome : Hakim Bey.

O nome é antes uma persona de Peter Lamborn Wilson, um estudioso americano dos sufis, que chegou viver alguns anos no Irã e conviveu com comunidades de devirxes, estudando rituais secretos dos sufis. Tradutor de poesia sufi e teórico rebelde, Wilson publicou, entre outros, uma coleção de estudos sobre os anarquistas do século dezenove, em Escape the nineteenth century, e um livro polêmico sobre costumes secretos da tradição sufi com o título nada inocente de Scandal : Essays in Islamic Heresy, onde aborda desde a seita dos Assassinos de Hassan Ibn Sabah (um dos temas prediletos de William Burroughs), o consumo de haxixe e outros estupefacientes entre os sufis, e o hábito de contemplação pedofílica entre poetas no Islã. Não se assuste: ousadia e surpresa são uma permanente nesse pensador do impensável. Não bastasse ir bem além das fronteiras que Salman Rudshie sequer atravessou, Lamborn Wilson avançou mais ainda teorizando sobre nossa época, a crescente virtualização do pensamento e das transações econômicas, juntou a isso seu conhecimento cabal do ideário anarquista e dos movimentos subversivos que o precederam, e assim surgiu Hakim Bey.

Esqueça agora a pós-modernidade, esqueça a Nova Era, esqueça o fim da história. Hakim Bey já esteve lá, e, quem sabe, poderá lhe contar como serão os tempos vindouros. A contemplação do sublime tecnológico e a frivolidade paródica da pós-modernidade são absolutamente alheios a este ativista tecno-pagão e iconoclasta. Os anjinhos sorridentes do supermercado new age são quebrados a martelo pelo dionisismo nietszcheano brotando nas raves e por magos seguidores de Aleister Crowley. O conformismo dos pregadores do fim da história e da globalização é desafiado pelas hordes de anarquistas nômades que falam outra linguagem que não a do mercado das grandes corporações.

É da pena de Hakim Bey que surgiu o já clássico TAZ (Temporary Autonomous Zone) ou Zona Autônoma Temporária. A TAZ ou ZAT, em português, é livro de cabeceira(ou de tela, se preferir) de nove entre dez ativistas eletrônicos, e, pode ter certeza, eles não são poucos. Liberado de direitos autorais, como de resto toda a obra de Hakim Bey, a ZAT é como diz o próprio nome, uma zona de liberdade temporal, onde a livre expressão, o livre pensamento, a imaginação, crença e prática são exercido sem a repressão e o controle da autoridade, i.e. o Estado e a Mídia. Dado seu caráter temporário, volátil e passageiro, a ZAT tem a pretensão da realização utópica no aqui e no agora.

Sua grande inspiração são as utopias piratas dos séculos dezessete e dezoito e sua materialização mais fremente são as festas, celebrações coletivas, as raves, o carnaval, os sites de troca de livre informação, todo e qualquer lugar onde se possa exercer a plena liberdade mesmo que por uma curta duração de tempo. Lugar ideal de autonomia temporária, a internet, por seu caráter invisível permite, pelo menos por enquanto, essa troca nômade de experiências, esse intercâmbio de desejos livres. Lugar de desaparecimento, onde a presença é nada mais que um dado, a internet proporcionaria o ponto de fuga necessário para as estratégias de ataque à ordem global ora vigente. Para isso, Bey falará de uma contranet, uma rede de informações ligada aos membros do mundo oculto do underground e da contracultura, anarquistas, comunistas, hackers, cyberhippies, ecoguerrilheiros, e assim por diante. A ZAT seria o grande ponto de encontro, confluência de todas as tribos de discordantes, de xamãs, de tecno-rebeldes. Como tal, como vislumbre de uma utopia, a ZAT seria apenas o primeiro passo para a Zona Autônoma Permanente, aí sim, realização perene do desejo utópico.

Em seu filão de precursores, Bey citará os piratas bucaneiros, que formaram um república independente, estudará a utopia de Charles Fourier, com sua junção de arte e sexo na criação de um estado amoroso e chegará até mesmo à estranha república de Fiume, fundada pelo escritor italiano Gabrielle D´Annunzio, formada majoritariamente de anarquistas, segregados e párias sociais, putas, artistas e loucos em geral, uma piração do meio do século vinte, praticamente desconhecida em nossos manuais de história. Aí também poderão ser adicionadas as comunidades livres dos anos sessenta e setenta.

Pode parecer que não, mas a Zona Autônoma Temporária tem dado muito o que falar na internet. São numerosíssimos os sites em lingua inglesa com TAZ livre para download e eles vão de sites de estudos de tecnologia e sociedade, sites artísticos, de ativismo, de anarquistas, de contracultura e anos sessenta, de anti-copyright, neo-situacionistas ou de culture jammers. A influência de Hakim Bey é visível em toda uma nova geração de artistas e poetas, que já sentiam falta de alguém que levantasse a poeira como fizeram os beatniks nos anos cinquenta e sessenta. A ZAT reatualiza toda uma tradição de contestação nos Estados Unidos, que vem desde Henry D. Thoreau e sua Desobediência Civil, assim como do libertarianismo de Whitman. A nova geração de artistas, músicos e cineastas na linha anticopyright assim como os “congestionadores de mídia”, os provocativos culture jammers, com suas estratégias de guerrilha sabotando propagandas, interferindo em slogans e produtos massificados, alterando discursos dos meios de comunicação seguem nada menos que esse anseio utópico anti-capitalista.

Além disso, a crescente popularidade das raves, o aspecto tecno-xamãnico dos DJs nessas reuniões gigantescas de uma coletividade que transcende barreiras com a dança, igualmente revela esse desejo de liberdade e elevação.

Mas há muito mais deste Marco Polo do mundo underground. Uma infinidade de textos com sua rubrica e indefectível visão crítica estão espalhados pela rede. Alguns se inclinam mais para o ensaio, outros para a poesia. Coisas como CHAOS : the broadsheets of onthological anarchism (CAOS: os panfletos do anarquismo ontológico), pura poesia subversiva e inconformista.

Com idéias pertubadoras, imagens pouco aceitáveis, o libertarianismo de Hakim Bey é um vento fresco numa época de tanto conservadorismo como a nossa. Seu antídoto é poderoso frente ao marasmo pós-moderno e ao controle mental das maiorias silenciosas. Depois dele, muitos já surgiram. Outros surgirão.

Como Grant Morrison, Bey é um desses caras que conseguiu ligar os dados certos, fazendo as conexões mais inesperadas mas nem por isso menos corretas. Sua intuição e capacidade visionária nos põe anos à frente em relação ao que pode acontecer neste planeta. Não só. Sua re-visão do passado igualmente ilumina em relação a coisas às quais ainda não havíamos atentado.
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Ricardo Rosas

Uma nova ciência, baseada na linguagem e na percepção, está tomando corpo. Esse saber, chamado de memética, aos poucos têm se disseminado, com seu aparato de novas palavras, pela Internet.

O conceito básico é que palavras, idéias, são vistas como vírus, potentes contaminadores de significados que podem ser espalhados instantâneamente e que se auto-replicam na medida em que são comunicados. O termo meme apareceu pela primeira vez no livro “ O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, conceituado estudioso de botânica. Nele Dawkins define o meme como um equivalente mental do gene, que reteria as informações psicológicas básicas do ser humano e que funcionaria pela imitação e com a capacidade de replicação. Os memes, nesse caso, reteriam as informações básicas da espécie e estariam relacionadas aos mecanismos de sobrevivência.

A definição inicial, no entanto, tem sido paulatinamente incrementada e ampliada. Há cada vez mais estudiosos de memes, cursos voltados para essa disciplina, e já chega a fazer parte de currículos acadêmicos. A memética tem se voltado para entender os mecanismos de formação de opiniões, de transmissão de informações, de criação de novos conceitos. Daí sua aplicabilidade a estudos dos meios de comunicação, da mídia, da publicidade, da moda, e, é claro, da própria internet. Há vários livros que já saíram, em inglês, sobre o assunto e é enorme a quantidade de sites sobre memes. A premissa fundamental de que um slogan, uma frase, uma palavra, uma idéia, um estilo, um termo, podem ser um meme, é o que conta.

O enfoque da memética, em muitos casos, tem tido um mero víes comportamental. Volta-se, em geral, para os hábitos repetidos e lugares comuns, chavões sociais passados pelas instituições ou pela própria família, de pai para filho, ou, numa empresa, de patrão para empregado.

Mas essa é só a ponta do iceberg. A subversão do conceito de meme tem sido igualmente explorada, chegando a ser proposto que se hackeie memes. A coisa evoluiu de tal forma que um mote já antigo, o da linguagem como vírus, está sendo reutilizado pelos estudiosos dos memes. A metáfora do vírus, que vocês já devem conhecer da famosa música de Laurie Anderson, “Language is a vírus”, vem por sua vez do escritor beat William Burroughs, que acreditava que somos todos controlados pela mídia e meios de comunicação e que a única forma de escapar a esse controle era emitindo, criando vírus de linguagem, coisa que ele fazia através de sua experiências com os cut-ups. Burroughs cutapeava os textos de jornais e revistas recortando-os em pedacinhos e colando-os ao acaso para daí extrair novas mensagens, reconfigurações de significados. Da mesma forma, aplicaria isso a tapes, gravando conversas, músicas, sons de rua, de bares, de vários locais e misturando tudo para obter novos efeitos, que explicará detalhadamente em A Revolução Eletrônica. A noção de vírus cai direitinho no conceito de disseminação dos memes, e mais ainda nos anti-memes ou memes hackeados.

A abordagem viral do meme não podia ser mais atual, nessa nossa época de AIDS e vírus de computador, e é sob esse aspecto que os memes tem sido utilizados por grupos undergrounds como os zippies e os culture jammers. Os primeiros, freaks cibernéticos ou cyberhippies, se autoproclamam eles mesmos um novo meme e pretendem lançar cada vez mais novos memes, unindo conceitos de tecnologia e misticismo, filosofia DIY (faça-você-mesmo) e psicodelia pela rede e pelo submundo eletrônico das raves. Já os culture jammers querem a implosão semiótica do sistema capitalista e sua mídia. Para tanto sua estratégia é a paródia, o plágio alterado (ou deturrnamento, desvio), a interferência, o ruído. Essas estratégias de assalto e sabotagem da mídia subvertem os memes propagados pela publicidade e programas de tevê e seu objetivo primordial é modificar a visão passiva que temos e absorvemos dessas mídias. Historicamente falando, um pouco do que os dadaístas, situacionistas e punks vêm fazendo ao longo do século.

Agora que você já sabe o que são memes, cuidado. Este é um meta-meme. Ele já está na sua cabeça. Espalhe-o por aí.
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A palavra “escrache” vem da linguagem popular. Significa por em evidência, trazer à luz. Os Escraches surgem como resposta à impunidade que os governos democráticos haviam garantido aos genocidas da ditadura militar. Inicialmente foram pensados para denunciar os repressores que transitavam livremente pelas ruas, indo buscá-los em suas casas e apontando sua presença nos bairros. Rapidamente esta prática foi conseguindo um efeito inesperado: a condenação social. Os assassinos, a cada vez que eram “escrachados”, sofriam o repúdio dos vizinhos do bairro onde vivem, e muitos tiveram de se mudar.

De 1998 a 2000, junto ao grupo H.I.J.O.S., Etcétera...participou na criação dos Escraches.

De uma entrevista com Andréas Siekmann e Alice Creischer, Buenos Aires, 5 de fevereiro de 2003

Alice: Vocês se juntaram ao movimento do H.I.J.O.S. e aos escraches: como foi isso, como se deu e porquê?

Federico: Estávamos na formação do grupo e na busca de um espaço físico, e ao mesmo tempo na busca de um espaço social onde pudéssemos trabalhar com as idéias que tínhamos. Nesse momento – 1996 - H.I.J.O.S. havia começado a fazer os escraches, era algo novo, haviam feito apenas duas vezes e era um método de denúncia dos militares que era algo totalmente novo.

Alice: Podem descrever para quem não sabe como funcionam os escraches?

Federico: Sim. Dentro da Comissão, que é aquela que o organiza, primeiro se buscam os dados da pessoa que se irá escrachar, se faz uma espécie de trabalho de inteligência, se averigua onde mora, quais suas atividades, em que horário sai, um trabalho de inteligência, e quando já se sabe tudo isso, então se procede à organização pesquisando quais os métodos para denunciá-lo em frente à casa da pessoa, onde ela mora.

Loreto: Até o ano de 98, os escraches funcionavam como uma pequena parte do H.I.J.O.S. que articulava esse aparato de inteligência interno e escrachava as casas simplesmente colando lambe-lambes com a cara ou com os dados do genocida. Nesse mesmo ano, nós percebemos uma necessidade de participar. Nos aproximamos da mesa de escrache propondo levar ações artísticas aos escraches.

Federico: De início, era uma comissão dentro do grupo do H.I.J.O.S. que são quase todos “H.I.J.O.S.” (1) de desaparecidos ou de exilados, mas os que detinham as decisões eram os diretamente afetados, os H.I.J.O.S.. Sendo que depois o que se buscava era que as pessoas nos bairros reconhecessem esta gente e não os deixassem viver tranqüilos, como não estão na prisão, se procurava fazer uma prisão social, então aí se optou por uma estratégia que era, em vez de ser uma comissão, fazê-lo como uma mesa aberta para os vizinhos do bairro, para que haja maior participação.

Loreto: A diferença da mesa com a comissão é que a comissão é a primeira parte, ou seja, era uma comissão dentro do H.I.J.O.S.. Todas as decisões dependiam da assembléia do H.I.J.O.S.. O que acontece é que a mesa de escrache é autônoma em relação ao H.I.J.O.S., pois o H.I.J.O.S. participa como um membro da mesa de escrache popular, portanto as decisões são tomadas mais democraticamente.

Federico: Depois, com o passar dos anos, o escrache deixou de ser uma questão apenas do passado da ditadura, mas também se começou a usar o método do escrache para denunciar um político que está no poder agora ou para denunciar uma pessoa que é um assassino, por exemplo, se ampliou para que todas as pessoas o façam.

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Escrache para Sánchez Ruiz – 24 de maio de 1997


Genocida Escrachado:
Raul Sánchez Ruiz, capitão de fragata na reserva, que auxiliou partos de grávidas detidas na Escuela Mecanica de la Armada (E.S.M.A.) durante a ditadura militar de 1976. Foi médico da sala de tortura, participou de “vôos da morte” (2), era encarregado de aplicar injeções no detidos antes de atirá-los ao mar.

Localização: Pena 2065, bairro Recoleta. Buenos Aires, Argentina.

Número de artistas participantes: 10

Este é o primeiro Escrache onde se realiza uma ação teatral, e se introduz, como método de marcação da casa dos genocidas, as bombuchas (Bombas) recheadas de tinta vermelha.

Personagens:
Novo Ilustre
Médico
Trompetista
Parteiras
Militar
Bebê

Ação:

Novo Ilustre: - Novo Ilustre, aqui tenho a credencial, que ratifica. Foi Manuel Belgrano quem me deu. Sabem por que estamos aqui?
Eu venho dar justiça a este país de miséria.
Pelos que vieram e não ousaram falar, pelos que falaram e ofuscaram sua voz, a história não está encerrada até que o último recorde e tenha memória, senhores.
E agora: que se renove a história.

Militar: - Livre ou preso (fazendo girar um cartaz com as duas alternativas). Vocês decidem, senhoras e senhores. Em Buenos Aires, 24 de maio de 1998: eu desejo ter um Filho. E aqui próximo de vocês, aqui o seu vizinho, pode me ajudar, é o Ruiz “Menguele”.

Médico: - Olá...Como vai?, bem , bem, há umas loirinhas de esquerda muito lindas, meu general...

Militar: - Com minha esposa, estamos pensando em ter um filho, e sabemos da qualidade das garotas “vermelhinhas”, e queremos justamente isso: um pequenino, “vermelhinho”. Podemos conseguí-lo aqui?

Médico: - Aqui próximo na E.S.M.A., meu General...

Militar: - Alguém deseja ter um Filho...?

Médico: - Parteiras!!!

Entram duas enfermeiras com um manequim que simula o corpo de uma mulher grávida.

Médico: - Quanta “picana” (3) deram a esta?

Enfermeiras: Ela resiste, meu general, resiste...

O médico começa a tocar o ventre do corpo da mulher, coloca umas luvas, saca uma seringa e injeta na barriga com violência, em seguida tira um bebê ensanguentado, e o entrega ao militar.

Militar: (Agarra o bebê com suas mãos) – Deve ter recordações do ventre “vermelho”, deve ter recordações de sua mãe no ventre. (O trompetista soa o trompete na cabeça do bebê) – Pronto!

– ...O que não imaginavam era que os “H.I.J.O.S.”, voltariam para buscar-lo (dá meia volta e apontado para a barreira policial) – Agora companheiros: PREPAREM, APONTEM: FOGO!!

Voam bombas de tinta sobre a casa do genocida, ao grito de “assassino”.

NOTAS

1. Hijos, em português, significa filhos. (N. do Tradutor).

2. Os vuelos de la muerte eram assassinatos promovidos pela ditadura argentina nos quais milhares de prisioneiros vivos e dopados com sedativos eram atirados no oceano a partir de aviões militares. (N. do T.)

3. Instrumento de tortura movido a eletricidade, muito usado na ditadura argentina. (N. do T.)

Tradução de Ricardo Rosas

Fonte: Ex Argentina (www.exargentina.org).

Link: H.I.J.O.S. (www.agrupacionhijos.tk).
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"É melhor dormir em meio às vacas que
em meio às suas etiquetas e respeitabilidades"
(Nietzsche)



Imagine-se caminhando por uma calçada no centro de São Paulo, apressado e distraído. Como de costume, você tenta ultrapassar um homem que anda (vagarosamente) à sua frente. Mas, de maneira brusca, ele resolve parar e dar a volta em torno de uma árvore, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E continua a andar, satisfeito.

"Pá, mas já é a terceira pessoa que eu vejo dar a volta nessa árvore!", disse um moço, sentado em um bar próximo ao local. Os transeuntes ficam olhando, com uma expressão de perplexidade e medo, pensando em coisas como: "Que será que aconteceu com esse maluco?", "Acho que é promessa", ou "Será que a gente ganha algo se der a volta também?".

Não era só maluquice, tratava-se de um ambicioso projeto. Era a "Trajetória em Torno da Árvore" – sim, há um nome pra isso –, e fazia parte de uma espécie de jogo ou intervenção criativa nas ruas de São Paulo. A coisa aconteceu em 1978, em frente à Biblioteca Mário de Andrade (SP), e foi uma invenção de oito membros do grupo de teatro "Viajou Sem Passaporte".

Tudo bem, é estranho. Foi apenas o início de várias outras intervenções, tão bizarras quanto esta: a Trajetória do Curativo, a Trajetória do Paletó, o Trem Fantasma no Parque Ibirapuera e o Fim da Década. Todos projetos aparentemente bobos, mas que continham enorme carga de desobediência civil e provocação: segundo Luis Sergio Raghy, um dos participantes, o objetivo era "instaurar uma crise na normalidade vigente", lutando contra a sujeição apática às regras e buscando a liberdade individual.

Por exemplo: a Trajetória do Curativo. "A gente pegou uma linha de ônibus e ficou um em cada ponto da linha. Cada um com um curativo no olho. E tinha dentro do ônibus uma pessoa disfarçada de passageiro, só pra observar", conta o Raghy, na publicação Arte em Revista. "Então o primeiro deles entrava no ônibus, passava a catraca, curativo no olho e tudo bem". No ponto seguinte, outro deles subia, também com um curativo no rosto. O ônibus ia andando e sempre tinha um com um curativo, contente, agindo como se tudo estivesse na mais sacrossanta ordem.

Em cada ponto descia um e subia outro. Num determinado momento, o motorista já virava para trás e o clima estava estranho. As pessoas se entreolhavam: "Quer dizer: um ou dois talvez fosse uma coincidência, mas dez caras.., é foda! Tem alguma coisa aí". Os passageiros ficavam especulando, cochichando – será que é organizado? Mas quem é se organizaria pra fazer um troço desses, por Deus? No último ponto da trajetória tinha um cara do grupo, segurando um cartaz com um rosto desenhado e o curativo colado, com o nome "Trajetória do Curativo", assinado: "Viajou sem Passaporte". Imagina só a cara das pessoas, observando a cena.

Tais práticas, dotadas de um nível de bobice invejável, poderiam muito bem enquadrar-se na desobediência civil de Thoreau ou no "Pequeno Manual de Subversão Cotidiana" (http://fraude.org/sociedade.php), do Marcelo Träsel. "Seja para minar os pilares do capitalismo, seja por simples diversão, aqui vão algumas idéias de como atrapalhar o bom andamento da ordem e do progresso", disse o filósofo da Fraude. Já a Libertad, personagem do Quino, completa: "Una pulga no puede picar a una locomotora, pero puede llenar de ronchas al maquinista".

O que importa é cutucar. Seja utilizando métodos de interrogação platônica (ficar perguntando infinitamente o porquê das coisas, como uma criancinha birrenta, até que algo se mostre insustentável), ou mesmo dando repetidas voltas em torno da árvore.





:: Desafiando o senso comum ::


Um grupo de sociólogos (americanos) já tentou fazer experiências desse tipo, apenas para testar a reação das pessoas diante da "profanação" de regras cotidianas. Harold Garfinkel, um dos pesquisadores, mandou os alunos testarem as reações de seus próprios amigos. Saíram diálogos do tipo:


(pessoa): Oi, Ray. Como vai a sua namorada?
(estudante): Como assim, "como vai a minha namorada"? Você quer dizer, como ela está fisicamente, mentalmente..?
(pessoa): Perguntei como ela vai, oras! Qual o problema com você? [a pessoa parece irritada]
(estudante): Nenhum. Apenas explique um pouco mais claramente o que você quis dizer com isso, por favor?
(pessoa): Tá, tá. Deixa pra lá. Como estão indo as provas na Faculdade?
(estudante): Como assim, "como elas estão"?
(pessoa): Você sabe o que eu quis dizer.
(estudante): Eu realmente não sei.
(pessoa): Qual o problema com você? Está doente?



Muitas vezes, a coisa ia tão longe que até a hipocrisia era revelada, para espanto do estudante que fazia a experiência:

"A vítima acena, com uma satisfação incrível e um contentamento impressionante.

(pessoa): Oi!!! Como vai?
(estudante): Como vou, com relação a quê? Minha saúde, minhas finanças, minhas notas na faculdade, minha paz de espírito, ...?
(pessoa - ficando vermelha, e subitamente fora de controle): Olha aqui!!! Eu só estava tentando ser educado. Francamente, não dou a mínima pra você!"


Outras experiências foram feitas dentro da própria família: os alunos eram orientados a agir em casa como se fossem hóspedes, de maneira polida e distanciada, que é o que geralmente acontece nas relações formais cotidianas, com pessoas desconhecidas. Tente responder a algum grande amigo seu: "Concordo plenamente, Sr. Herzberg!", como fez um dos alunos em relação ao pai. Experimente não parecer feliz dentro de uma sala de aula, com os seus supostos colegas, para ver como aparentar alegria é uma norma a ser cumprida, o tempo todo.

As reações são das mais esquisitas: Qual o problema? O que você tem? Você foi demitido? Está doente? Por que está sendo tão arrogante? Andou bebendo? Você é idiota? Por que você está maluco? Um dos estudantes "envergonhou" sua mãe na frente dos amigos (dela), apenas entrando na sala e dirigindo a seguinte pergunta: "Desculpe, mas a senhora se importaria se eu apanhasse um lanche na geladeira?". A mãe ficou furiosa e tentou explicar às amigas que o filho estava doente, trabalhando bastante ou algo do gênero. Um dos pais chegou a dizer:

(pai): Sua mãe está certa. Você não parece bem e não está agindo de maneira coerente. Deveria escolher outro emprego, que não exija tanto de você
(filho): Aprecio a demonstração de consideração, pai, mas estou bem e preciso apenas de privacidade.
(pai – perdendo a compostura, bravíssimo): Não quero mais saber dessa maluquice que te deu, e, se você não consegue tratar sua mãe de maneira decente, é melhor ir embora dessa casa!



:: O senhor poderia segurar meu paletó? ::


O que fazer numa sociedade previsível e aprisionante? "Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência", responde Thoreau. E então, um grupo de teatro chega e organiza a incoerente Trajetória do Paletó.

Foi assim: entra um cara no ônibus vestindo um paletó. Um calor absurdo, as pessoas derretendo em seus bancos e aquele cara ali, de paletó. Então o segundo sobe e senta na frente, como se ambos não se conhecessem. De repente, o que estava com o paletó passava pro outro, dizendo: "O senhor poderia segurar o meu paletó?". E depois descia, sem mais nem menos, deixando a roupa nas mãos de um suposto desconhecido. Que, dentro de alguns instantes, passava o paletó pro terceiro homem do grupo, e assim por diante.

O Raghy era o último a receber a roupa, e sua missão era entregar o paletó para algum passageiro qualquer do ônibus, aleatoriamente. "Na hora que eu subi já estavam dando gargalhadas", diz.

"O ônibus estava quente, você sentia, saca um clima diferente. E todo mundo já tinha percebido que seria eu que receberia o paletó. Tava mais que na cara. E a gente, lá, com a maior seriedade. Aí o elemento do grupo passou o paletó pra mim e eu fiquei com ele. O cara desceu. Então, naquele banco atravessado tinha duas mulheres que riam pra caralho. Morriam de rir, não sei porque, né? Acho que do absurdo da situação... Aí eu pensei comigo: Vou entregar pra uma delas o paletó. Na hora de descer, cheguei e disse: ´A senhora podia segurar o meu paletó?´ E elas: ´deixa ai, deixa aí´, e pus no banco.

Eu desci e o paletó continuou sendo passado dentro do ônibus. Aí alguém falou assim: ´Acho que é promessa...´ e coisa e tal. Ninguém achava que era arte. Cada um dizia que era uma coisa. Uma das mulheres falou o seguinte: ´- Olha, só mesmo a gente andando de ônibus pra gente se divertir´. Puta, achei essa frase ótima, incrível. Aí acontece que alguém pegou o paletó e desceu com ele. Dentro desse paletó estava escrito ´Favor devolver no endereço tal´, prevendo-se a remota hipótese de alguém devolver o paletó. Aí seria incrível (nunca aconteceu), o paletó teria dado uma trajetória completa. Mas era um paletó bom e o cara deve ter ficado com ele".



:: Não vejo a hora de ser uma velha doida ::


Pode parecer total falta de coerência, mas é (também) revolucionário. Quando a intervenção é nas ruas, são muitos os que admitem a quebra dos padrões e se rendem à irreverência total com relação às regras; mas, quando a subversão acontece dentro de alguns locais, a coerção se faz sentir. Houve um caso, num colégio católico paulista, em que uma garota (não vou citar nomes) foi suspensa pela Diretoria da escola por ser "anti-social". Era a justificativa: está lá, escrito na ficha criminal. Apenas porque se recusava a sorrir perante as câmeras, a ser gentil e bem-humorada com seus adoráveis colegas.

Para Henry Thoreau, sai mais barato - em todos os sentidos - sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer. E ele vai além: sob uma sociedade que prende os cidadãos numa rotina coercitiva e insuportável, o único lugar digno é a prisão. Declara, em A Desobediência Civil: "Hoje em dia, o lugar próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e trancados longe do Estado, por um ato do próprio Estado, pois os que vão para a prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. (...) É aí, nesse chão discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode perseverar com honra".

O símbolo da nossa liberdade não é a francesa Marianne, limpa e altiva, com seus olhos brancos de opaco mármore; é a brasileira Fátima (ou Jucineide), velha doida que anda pelas ruas a circundar as árvores, conversando com as pombas e cantando ópera na escadaria do Teatro Municipal. "Não vejo a hora de ser um velho bêbado", era o que me dizia um amigo, inspirado. Se é para estar preso dentro de sua própria insônia, rodeado de vira-latas que apenas podem optar entre doze tipos de comida (tampinha de laranja, casca de cebola, embalagem de isopor ou farofa), é melhor ser um tipo doido, pronunciando todas as consoantes ao mesmo tempo – "com um cano de revólver dentro da boca, você só consegue pronunciar vogais" – e cuspindo nas cabeças das pessoas semi-mortas. As que andam nas ruas a olhar para o relógio e a desempenhar suas funções robóticas: a família, os avós, as estátuas de sempre, o vazio constante e o horror, o horror.



Se vira:

"Viajou Sem Passaporte" – verbete da Enciclopédia de Teatro do Itaú Cultural. Disponível em:
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/teatro/index.cfm?

THOREAU, Henry D. Desobediência Civil. Disponível em: http://www.culturabrasil.pro.br/zip/desobedienciacivil.pdf

GARFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. New Jersey: Prentice-Hall, 1967.

RAGNOLE, Luís Sérgio. "Viajou Sem Passaporte". Arte em Revista, São Paulo, Kairós: CEAC, ano 6, no. 8, pp. 116-119, outubro de 1984. >
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Um espectro ronda a cultura - o espectro da mídia tática. Desafiante, brincalhona, iconoclasta e consciente, a mídia tática não tem papas na língua para por em questão os padrões do bom gosto, da apatia social, da prática artística ou da assepsia ideológica das novas mídias.

A partir dos anos 80 e com o advento de tecnologias baratas, uma nova forma de ativismo começa a surgir levada pela idéia de nomadismo e resistência. Esses movimentos visam oferecer uma outra maneira de pensar a função transgressiva da comunicação, muitas vezes através de um discurso estético. Essas características vêm tanto dos movimentos de contracultura dos anos 60 quanto da versão européia de estética revolucionaria vanguardista. As vanguardas mudaram o lugar da arte das galerias para as ruas reintegrando-a à práxis da vida, mas a experimentação cultural não pode ser privilégio de uma política ou movimento assim como a arte não precisa mais ser a expressão maior de uma superioridade moral.

Mídia Tática é um conceito que se firmou nos anos 90, fruto de práticas de ativistas de mídia e festivais de novas mídias na Europa e nos EUA. Seu fundamento básico é a produção "faça-você-mesmo", realizando um uso diferenciado das potencialidades de comunicação tornadas possíveis graças à crescente acessibilidade de materiais e equipamentos de mídia.

Desvinculada de interesses de mercado e de agendas ideológicas associadas aos grandes meios de comunicação, a mídia tática dá voz a todos aqueles excluídos desses meios: classes desfavorecidas, minorias (raciais, sexuais, etc.), comunidades alternativas, dissidentes políticos e artistas de rua, entre outros.

Mídia tática usa não somente os meios usuais, mas também os espaços públicos - não como mera maquiagem urbana, mas voltada a questões de interesse geral, e por isso sua natureza híbrida misturando cultura popular, cultura oposicionista e mesmo a cultura de massas. Daí também sua vasta abrangência, que vai da reutilização de mídias tradicionais como tv, rádio, vídeo, meio impresso e artes em geral, a web sites, produção de softwares e todo tipo de mídia eletrônica, incluindo igualmente, se for o caso, performance, djs e teatro de rua. Rua = esfera pública alternativa que permite uma maior interação entre obra e audiência. Mídia como entendimento de seu próprio potencial criativo, e a conscientização como um processo critico contra a hegemonia deformadora.

Isso não quer dizer que ela seja somente uma mídia alternativa, pois o conceito de mídia tática foi criado justamente para fugir destas dicotomias - amador vs profissional, alternativo vs. mainstream - baseado-se justamente na flexibilidade de suas extensões, de suas respostas, assim como no trabalho colaborativo e em sua mobilidade entre as diferentes mídias. O mais importante são as conexões temporárias que conseguem ser feitas através dela.

Mas qual o sentido de um "Laboratório de Mídia Tática" no Brasil?

Ocorre que muita gente tem produzido mídia tática por aqui, mesmo sem saber que o que fazem tenha um nome. Seja intervenção urbana, usos táticos da arte, da web, de rádios piratas, fanzines e por aí vai, o fato é que estamos assistindo a um verdadeiro boom de mídia indie no Brasil. Algo que não se poderia deixar passar despercebido. Além disso, urge uma inclusão digital que contemple, por exemplo, quem não possa bancar um micro. O conceito de mídia tática, então, pode ser adaptado à realidade brasileira ao propor alternativas, formas de mobilizações que propagam circuitos interdependentes. Essas buscas por autonomia falam sobretudo de educação, disseminação tecnológica inclusiva e relações centro-periferia.

Antropofagizamos práticas de mídia para, além de propor a coletividade e autonomia das relações produtivas, reconhecer igualmente a periferia - somos todos periféricos em relação ao Império - como realidade marginalizada e, antes de tudo, expressão primeira da lógica colonizada das culturas latino-americanas.

O estudo dessas praticas, através de um laboratório, demonstraria como utilizamos, consumimos e passamos adiante essas representações, pois já sabemos que as usamos muito mais criativamente do que supomos. Um laboratório, sendo um espaço de experimentação, de troca de informação e experiências, e um local em que químicas insuspeitadas acontecem. Um laboratório de mídia tática é um espaço em que todos nós somos artesãos de nossa mídia. Onde todos podem produzir, interferir, recombinar, informar a nossa realidade ordinária e assim voltar aos pequenos mitos cotidianos. Os praticantes de mídia tática são aqueles que não somente produzem suas histórias locais, seus dramas, alegrias e preocupações, como também as protagonizam.

Seja você a sua mídia, esse é o nosso lema!

E parafraseando o antropófago-mor,

"A nossa independência ainda não foi proclamada".

Contra a realidade social, vestida e opressora, catalogada de estatísticas e personagens de novela. Contra as guerras santas, os reality shows e os tráficos de sonhos disfarçados pela conivência dos jornais espetaculosos ante a anestesia e a cegueira de quem vê apenas o lado de cá das grades que se auto-impõem - a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias de um outro mundo possível.

1. Este texto foi o manifesto do festival Mídia Tática Brasil, realizado em março de 2003, na Casa das Rosas, em São Paulo.

Fonte: Mídia Tática (www.midiatatica.org)
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Práticas para o exercício da cidadania
Marta Vieira Caputo



Como se organizam e se difundem os movimentos ativistas no início do século XXI?

Com o advento da Internet, como essa nova tecnologia da informação vem favorecendo os mecanismos de exercício da cidadania?

Podemos realmente considerar que surge, neste momento, uma nova categoria de consumidores, conscientes de que seu poder de compra, enquanto instrumento coletivo de barganha, pode influenciar na decisão de questões globais e nacionais?

Se a Internet favorece a organização de comunidades virtuais, em torno de interesses que lhes são próprios, com que intensidade os movimentos ativistas originados nesse meio conseguem a adesão daqueles que se encontram excluídos da comunicação digital?

Com o advento da Internet, comunidades virtuais vêm se organizando, em todo o mundo, em torno dos mais diversos interesses. Movimentos ativistas, das mais diversas naturezas, utilizam-se desse veículo para distribuir seus manifestos, disseminar suas idéias, organizar passeatas, cadastrar militantes, simpatizantes e voluntários, no sentido de se fazerem ouvir em suas reivindicações, aspirações e opiniões.

As mais diversas mobilizações populares podem ser organizadas, totalmente pelo meio virtual.

Recentemente, preocupados em difundir informações e formas de organização unificadas de suas ações, os movimentos ativistas empenharam-se em organizar comitês pró-boicote, utilizando-se da Internet para difundir suas mensagens pelo planeta.

O termo “boycott” originou-se na Irlanda em 1780, quando o senhorio inglês Charles Cunningham Boycott foi “boicotado” por fazendeiros irlandeses famintos, por recusar-se a abaixar os aluguéis.

A partir dos anos 1990, os boicotes tornaram-se cada vez mais populares, recebendo uma crescente atenção por parte da grande mídia.

Após os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001 em Nova York, e a subseqüente ofensiva militar dos Estados Unidos da América ao Iraque, a prática dos boicotes às multinacionais que apoiaram a candidatura de George W. Bush à presidência dos Estados Unidos da América, se disseminou rapidamente por meio da rede mundial de computadores, contra as posturas assumidas por aquele governo, sob o pretexto de combater o terrorismo.

Nos EUA concentra-se a maioria dos comitês pró-boicotes, embora braços dos mesmos sejam encontrados em todos os continentes. Este tipo de manifestação não-violenta tem sido usada para protestar sobre questões globais ou nacionais, tais como práticas trabalhistas injustas, liberdades civis, discriminações, direitos humanos, proteção aos animais e ao meio ambiente, tendo por alvo práticas de companhias ou políticas de governo envolvidas nessas questões.

A ação em boicote ganhou aclamação como uma ferramenta de protesto não-violento com o boicote aos ônibus em Montgomery Alabama, organizado pelo Dr.Martin Luther King Jr. em meados dos anos 50, e que se tornou um momento decisivo do movimento pelos direitos civis da comunidade negra dos EUA. O boicote tornou-se um dos meios de protesto utilizados por organizações pacifistas e que pregam o ativismo não-violento, desde então.

Uma das vitórias mais significativas dos boicotes, foi a abolição do apartheid na África do Sul. As campanhas de boicote aos produtos da Shell, Kellog`s e Coca-Cola, entre outras, haviam sido lançadas mundialmente para protestar contra as políticas racistas do governo sul-africano. As companhias afetadas pelo boicote receberam manifestações de acionários solicitando o desinvestimento no país, catalisando as circunstâncias para a abolição do apartheid em 1994.

Outra campanha pró-boicote recente e significativa foi lançada em 1995 pelo International Peace Bureau, em oposição aos testes nucleares franceses na Polinésia Francesa. Em especial, a indústria vinícola francesa foi duramente atingida por essa campanha, por causa de sua popularidade internacional. De acordo com Bruce Hall, coordenador do Comprehensive Test Ban Clearinghouse, o boicote combinado aos protestos, teve um impacto real: o número de testes foi reduzido em 25%. Adicionalmente, o presidente francês, Jacques Chirac comprometeu-se a assinar o TIPT (Tratado Inclusivo de Proibição de Testes). Finalmente, em 1998, a França ratificou o TIPT.

Algumas campanhas pró-boicotes são significativas pela sua duração. A mais longa durou 12 anos, lançado pelo Irish National Caucus contra a Ford Motors. Essa campanha terminou em 1998, quando a companhia concordou em implementar os princípios de McBride. Estes princípios impediram que empresas dos EUA subsidiassem a discriminação anticatólica na Irlanda do Norte.

Em 1979, donas-de-casa do Brasil se uniram para boicotar o consumo de carne, devido aos altos e abusivos preços do produto. O movimento conseguiu uma queda de 20% no preço da carne, segundo o IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor .

Em outubro de 2003, em mais um ataque aos bancos por causa da cobrança de altos juros, o vice-presidente da República do Brasil, José Alencar, sugeriu que toda a sociedade boicotasse as instituições financeiras, não tomando empréstimos ou contratando financiamentos, até que as taxas de juros caíssem.

Recentemente, o IDEC propôs um boicote às empresas de telefonia, o “Caladão”, para pressionar a Presidência da República a rever, junto com as empresas mencionadas, os reajustes abusivos das tarifas. O instituto propõe o boicote ao uso dos telefones fixos às quintas-feiras entre 12h e 13h, tanto para fazer como para receber chamadas, disponibilizando, no site do Instituto, um selo para ser afixado nos telefones, cuja função é lembrar aos usuários a adesão ao boicote.

Outra ação de boicote, ora em curso no Brasil, foi deflagrada pela classe médica, contra as operadoras dos planos de saúde. Segundo entidades médicas, há cerca de dez anos os médicos não recebem quaisquer reajustes das empresas de planos de saúde, que, por sua vez, seguem impingindo pesados aumentos para os pacientes. Só nos últimos sete anos, os planos subiram 248%, isso sem contar a recente majoração de 11,75% autorizada pela Agência Nacional de Saúde. O ICV (Índice do Custo de Vida), no mesmo período, foi de 72,63%, segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos).

Os boicotes, enquanto formas não-violentas de protesto, agregam à essa característica outros pontos positivos relevantes: quando bem organizados, são bem sucedidos na maior parte das vezes e podem ter grande impacto nas atitudes e práticas das companhias além de, conseqüentemente, influenciarem as políticas de governo.

Para avaliar a percepção que tanto internautas quanto não-internautas têm das práticas de boicote, há que se caracterizar as variáveis que compõem ambos os perfis.

Segundo Friedman (1991), pesquisas feitas nos EUA demonstram que líderes em negócios consideram os boicotes mais eficazes do que outras técnicas utilizadas pelo consumidor, tais como ações legais de classe, campanhas de cartas à empresa, ou lobby político. Os boicotes ameaçam diretamente as vendas e portanto, os líderes das empresas os levam a sério, mesmo quando apenas uma pequena parcela dos clientes é influenciada.

De acordo com John Monogoven, vice-presidente senior da Pagan International Inc., uma empresa de relações públicas, o sucesso da ação de boicote significa mais do que apenas uma queda nas vendas. Muito raramente o impacto é sentido nas caixas registradoras. Na verdade, eles têm problemas com a moral dos empregados – empregados não gostam de trabalhar para uma empresa que está sendo criticada e questionada. Pela mesma razão, eles têm problemas em recrutar os melhores estudantes de faculdades e universidades. E executivos de alto escalão passam uma grande parcela do tempo nessa questão, quando deveriam estar fazendo outras coisas (Revista Insight, 26/10/87, p.44).

Desde os anos 90 do século XX, as campanhas pró-boicotes estão ficando mais organizadas e têm recebido mais atenção da mídia. Se a grande mídia, por motivos óbvios, não lhes dá o espaço devido, as mídias alternativas têm se empenhado não só em divulgar tais campanhas, mas atuam ativamente também em todo o processo de mobilização, organização, difusão e até mesmo, de aferição dos resultados obtidos. Como conseqüência, as campanhas pró-boicotes tendem a se tornar cada vez mais eficazes em um período de tempo menor do que os boicotes antecedentes.

Hoje, por meio da Internet, um boicote feito por consumidores pode ser apoiado por milhões de pessoas. Conforme se lê em http://www.nua.ie/surveys/how_many_online/, (Nua Internet Surveys), 605,6 milhões de pessoas já estavam on line em setembro de 2002.

Considerando que as novas tecnologias da informação têm popularizado os boicotes, e que estes são instrumentos legítimos de exercício da cidadania, entendemos que a investigação de suas causas, de seu modus operandi e seus efeitos deve ser realizada de maneira isenta e precisa, oferecendo subsídios para a difusão de mecanismos que privilegiem o consumo ético e o aprimoramento das relações entre os produtores de bens e seus consumidores, as instituições governamentais e a população.

Enfatizando o contexto brasileiro, a partir do surgimento da Internet, os conceitos de info-inclusão e cidadania, certamente, não podem ser tomados como sinônimos, embora se reconheça a mesma se constitui direito de cidadania na fase atual da sociedade tecnológica. Segundo Eugênio Trivinho (2000, p.222), a info-inclusão é “(...) um novo direito em uma nova época como direito a essa época”.

Segundo informações colhidas em http://www.idbrasil.gov.br/, no Brasil, a inclusão digital caminha a passos largos, favorecendo a mobilização popular e, a partir da edição, pelo governo federal do Decreto n.º 4.769, de 27 de junho de 2003, aprovou-se o PGMU (Plano Geral de Metas de Universalização). Esse plano obriga as concessionárias de serviços de telecomunicações a alinharem-se com as necessidades da sociedade, decorrentes das inovações tecnológicas, tais como: Terminais de Acesso Público (que permitirão acessar provedores de Internet a partir de terminais de uso público, os chamados "orelhões"); redução das desigualdades sociais, por meio da implantação das Unidades de Atendimento de Cooperativas (que levarão progressivamente serviços de telefonia e Internet para as comunidades rurais); Defesa do Consumidor e Geração de Empregos, (mediante a instalação gradativa de postos físicos de atendimento pessoal, para utilização de serviços e reclamações, distribuídos no território nacional) e ampliação dos meios de Atendimento a Portadores de Necessidades Especiais (com a adoção de telefones de uso público adaptados para esses usuários). Além disso, foi aperfeiçoado o programa GESAC (Governo Eletrônico Serviço de Atendimento ao Cidadão), objetivando a ampliação dos meios de acesso e universalização das informações pela Internet. Com este programa foram implantados 543 unidades de comunicação, em banda larga, em parceria com o Ministério da Educação, representando cerca de 5.430 computadores disponíveis à população. O Ministério da Defesa está instalando 400 unidades de conexão à Internet em regiões de fronteiras. No âmbito do Programa Fome Zero, juntamente com o Ministério da Segurança Alimentar, estão sendo estruturados "Telecentros" em 1000 localidades abrangidas pelo Programa.

Ainda de acordo com a mesma fonte, acima citada, o Ministério das Comunicações brasileiro assim se pronuncia sobre a questão:

(...) inclusão digital é sinônimo de software livre para que seja economicamente sustentável e vinculada ao processo de autonomia tecnológica nacional, mediante a utilização de plataformas abertas e não-proprietárias. Considerando que o simples fato de desenvolver softwares livres é um elemento de afirmação de nossa cidadania, de nossa inteligência coletiva, de redução da dependência tecnológica e do pagamento de royalties ao Primeiro Mundo, o Ministério das Comunicações prega que a essência do software livre reside em quatro liberdades que seus usuários devem exercer:

1. liberdade de executar o programa para qualquer propósito;

2. liberdade para estudar o programa e adaptá-lo às suas necessidades, ou seja, de ter acesso ao seu código f.onte;

3. liberdade de redistribuir suas cópias originais ou alteradas;

4. liberdade para aperfeiçoar o programa e liberá-lo para benefício da comunidade.

O Plano de Inclusão Digital e Alfabetização Tecnológica aprofunda a visão da educação, entendida como prática social transformadora da sociedade. A reflexão crítica da sociedade e da mundialização será utilizada para fomentar práticas criativas de recusa de todos os sentidos da exclusão social, inclusive de sua feição tecnológica e concentradora de conhecimento em círculos fechados do Primeiro Mundo. Por isso, o uso do software livre é uma decisão política-educacional.

Todo esse exercício em prol da inclusão digital, supõe-se, demandará a contrapartida da formação do cidadão, de suas aptidões e condições para o exercício da democracia. E, mobilizar-se em torno de interesses comuns, é também uma forma de educar-se para a cidadania.

Partindo do pressuposto de que a sociedade é constituída por categorias e grupos de pessoas cujos interesses diferem acentuadamente uns dos outros e que todos esses componentes buscam alcançar seus próprios interesses, competindo entre si, ou defendê-los, resistindo aos esforços competitivos de outros, o modelo do conflito social é um dos paradigmas pelo qual podemos analisar a questão da comunicação entre os grupos de movimentos ativistas e a sociedade como um todo.

Incluindo análises da comunicação, o modelo de conflito social pode ser formulado e utilizado na elaboração de hipóteses e teorias aplicadas especificamente ao processo social em questão.

Pela via do paradigma do conflito social, nossa preocupação central é provar o papel positivo do conflito na dinâmica das sociedades e apontar vias para a institucionalização da negociação. Esta institucionalização será a grande vantagem das sociedades livres, únicas capazes de reconhecer a diferença e a diversidade.

Na análise ideológica da comunicação, é imprescindível relacionar as forças sociais envolvidas nos fenômenos investigados. Entendendo o capitalismo e a industrialização como fenômenos estruturais primários da sociedade contemporânea podemos proceder à análise de recortes de importantes elementos da economia de mercado nos dias atuais: desemprego, crises econômicas e sociais, militarismo, terrorismo. Tal percurso nos conduz à crítica às disciplinas setoriais que se especializam sem compreender a sociedade como um todo, ignorando as intervenções sociais e os fundamentos históricos, limitando-se aos estudos das condições presentes e, assim, considerando o indivíduo independente de seu contexto. Esse indivíduo, enquanto consumidor, não é soberano de sua própria individualidade. Esta é substituída por uma pseudo-individualidade, cujas características conformam a massa homogênea dos perfis delimitados pelas pesquisas de marketing, fundamentadas na psicologia social ao configurar seus públicos-alvos, com o intuito de condicionar o consumo.


Neste ponto, questiona-se o papel dos mass media e suas estratégias de dominação na estrutura multi-estratificada de mensagens. Nesse cenário, o observador é colocado na situação de absorver ordens, indicações, proibições, deixando de decidir autonomamente.

Isto posto, colocamos a teoria crítica da comunicação como mais um pilar no contexto do referencial teórico que alicerça nossa análise, pois não podemos omitir a história social da produção dos objetos, em favor do discurso acerca dos objetos, imposto pela publicidade e avalizado pelos mass media que, desse discurso, extraem sua sobrevivência.

No momento em que se verifica a dissolução das fronteiras entre as telecomunicações, os mass media e a informática, uma nova mídia se configura. A privatização dos serviços de telecomunicação, ocorridos no mundo todo nas últimas décadas, por meio de compras, fusões e parcerias, vem alterar radicalmente a economia política do setor, promovendo vigorosamente o processo de oligopolização dos mesmos.

No Brasil, tal processo intensificou sobremaneira o poder de históricos global players privados e os analistas são unânimes em afirmar que, em poucos anos, o seu controle estará nas mãos de apenas uma dezena de empresas.

Assim, a compreensão do objeto das ciências sociais na sociedade globalizada passa a exigir novos conceitos e categorias, como coloca Venâncio A. Lima, in Mídia – Teoria e Política (2001), mencionando Ianni (1999), ao colocar tais conceitos e categorias:

(...) aldeia global, fábrica global, cidade global, nave espacial, desterritorialização, reterritorialização, redes inter e intracorporações, alianças estratégicas de corporações, nova divisão do trabalho, neofordismo, acumulação flexível, zona franca, mercado global, mercadoria global, moeda global, planejamento global, tecnocosmo, planeta Terra, sociedade civil mundial, contrato social universal etc.

A mídia desempenha, nesse cenário de globalização econômica e cultural, a centralidade da vida humana, quer como fonte de entretenimento, de informação ou como instrumento de trabalho, mesmo não se estendendo a toda população mundial e ainda que muitos ignorem o seu papel formador na cultura política.

Para investigar em profundidade o papel formador da mídia na cultura política, reconhecendo-a como objeto fundamental de análise para a compreensão do poder político no mundo contemporâneo, bem como para reunir subsídios empíricos para conhecer os movimentos ativistas emergentes e analisar suas ações, valemo-nos também dos conceitos de "cenário das representações políticas" (CR - P), "imaginário social e cultura política", por considerar que os mesmos são ferramentas adequadas ao reconhecimento dos atores sociais e dos cenários em questão.

No que tange, à própria gênese da Internet e ao surgimento das comunidades virtuais e suas mobilizações, não podemos deixar de recorrer a Manuel Castells, in A Sociedade em Rede, para compreender a revolução da tecnologia da informação, ora em curso, as implicações desta revolução no que se convencionou chamar de "nova economia", os processos sociais dominantes, organizados em torno de redes, e à sua teoria social de espaço e à teoria do espaço de fluxos.

Para compreender a "nova ecologia dos meios de comunicação” e como esta se organiza em torno da extensão do ciberespaço, consideramos relevante o paradoxo enunciado por Pièrre Levy, no artigo intitulado “O Universal Sem Totalidade, Essência Da Cybercultura” disponível em http://empresa.portoweb.com.br/pierrelevy/ouniversalsem.html, acessado em 04/10/04.

Para o autor, o cyberespaço, quanto mais universal (extenso, interconectado, interativo), menos totalizável, já que a cada conexão suplementar, mais heterogeneidade se acrescenta, novas fontes de informação, novas linhas de fuga, de maneira que o sentido global fica cada vez menos legível, cada vez mais difícil de circunscrever, de encerrar, de dominar. Em suas palavras,

(...) esse Universal dá acesso a um gozo do mundial, à inteligência coletiva em ato da espécie. Faz-nos participar mais intensamente da humanidade viva, mas sem que isso seja contraditório, ao contrário, com a multiplicação das singularidades e a ascensão da desordem. (...) a ecologia das técnicas de comunicação propõe, os atores humanos dispõem. Eles são quem decidem em última instância, deliberadamente ou na semi-inconsciência dos efeitos coletivos, do universal cultural que juntos estão construindo. E, para isso, devem ter percebido a possibilidade de novas escolhas.

A "maneira de consumir" é um dado fundamental para trazer luz a tal compreensão. Até há pouco tempo supunha-se que as formas de exercer a cidadania, atreladas à capacidade de apropriação dos bens de consumo e às maneiras de utilização dos mesmos fossem compensadas pela igualdade em direitos abstratos, traduzidos pelo ato de votar. Entretanto, constata-se hoje, que o elemento-chave da representação político-administrativa, o eleitor, raramente consegue enxergar saída para as questões prioritárias, diante de um quadro de degradação política e descrença nas instituições.

A identidade do cidadão comum é ditada mais através do consumo privado de bens, insuflado pelos meios de comunicação, do que por dados relacionados às origens territoriais dos indivíduos, o corpo de leis de sua comunidade, os direitos promovidos por estas, seus representantes, etc.

As sociedades, sujeitas à burocratização técnica das decisões impostas pelo modelo econômico neoliberal articulado em instâncias globais inalcançáveis, fazem com que apenas os bens de consumo e as mensagens se tornem acessíveis, para que cada um os use “como achar melhor”.

Os rápidos avanços das tecnologias da produção, a profusão e rapidez com que artigos com novos designs são colocados no mercado, a comunicação cada vez mais extensiva ou intensiva entre as sociedades, e a ampliação dos desejos e expectativas que criam, acabam por gerar um quadro de instabilidade das identidades, antes restritas ao repertório de bens característicos e exclusivos de sua comunidade étnica ou nacional.


Entretanto, entendemos que a cultura de consumo não é provavelmente, uma realidade cristalizada, definitiva e imutável. Verificamos que, das contradições da cultura de consumo, das dificuldades crescentes para a sua concretização, surgem movimentos e grupos sociais dispostos a questionar de forma contumaz essa sociedade, promovendo uma ruptura com o imaginário pós-moderno, e com os dogmas neoliberais ainda dominantes, que insistem em reiterar a impossibilidade da mudança do mundo.

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